"Todas as relações se alimentam de cumplicidades e de conflitos, de tranquilidade como de desassosegos, de paixão e de ternura. Nos movimentos de uma relação convivem pessoas com expectativas e com ritmos que, por vezes, se desencontram, e que nunca lucram da mesma forma com a vida com que ela nos renova. Por isso, cada relação - por má que pareça a comparação - tem um "deve" e um "haver" e, "feitas as contas", para que viva e para que cresça, está subentendido que os ganhos que traz superem as perdas com que nos supreende. Sendo assim, não é verdade que todas as relações sejam para sempre. E compreende-se porquê.
Algumas relações tiram-nos muito mais do que nos dão. Porque a generosidade de quem está connosco choca com as suas dificuldades de nos conhecer, ou porque a relação se foi fraternizando a ponto de se tornar sonolenta e triste, a verdade é que há relações que vão morrendo devagar, e mais ou menos em silêncio. Até que algum conhecimento, de súbito, precipite um "morte" que, desde há muito, se vinha pressentido (por entre a perplexidade, mais ou menos, embaraçada, de dois espectadores perplexos).
Sempre que vai morrendo, uma relação "ressuscita" a pessoa que nos foi "roubando" vida devagar. Mas, por vezes, ao elegê-la como "vilão", afunilamos nelas todas as culpas, damos um rosto ao "mal", aliviamo-nos de remorsos, e sacudimos algum adormecimento em que tenhamos caído.
Como vês, nunca se passa - depois de um adeus - de um vínculo amoroso (magoado) a uma relação de amizade. Acredito que algumas relações pareçam assim. Mas não te esqueças que, em função do medo de se assumir a revolta que nos move, ou, até, do sossego que reclamemos para nós, há capítulos azedos que se silenciam, por vezes, e que "a olho nu", sugerem uma sólida amizade onde, antes, só exisita ressentimento e dor. E, como sabes, na vida, nunca se branqueia o que se magoa.
Não esperes, por isso, que das ruínas de uma relação se levante um oásis. Muito menos, que uma sucessão de desilusões se transfigure num sonho lindo. Dá tempo aos sentimentos para que se sedimentem. Não tanto para que perdoes a quem te magoou. Mas - mais difícil, certamente - para se perdoares a ti própria por não teres "dado ouvidos" aos avisos do teu "coração". Que, depois do adeus, terão ressurgido - na outra pessoa como, talvez também, em ti - e que vos terão dado uma "massagem cardíaca" de um "ódio de estimação" (rico em adrenalina) que sossegou alguns remorsos. Os restantes terão afunilado para ti todas as culpas (tuas...e dele) que, com o afastamento dos dois, terão ficado mais nítidas, mais imcompreensíveis e mais insuportáveis do que nunca..."
(tinha-te em grande consideração, mas acho que merecia um pouco mais de respeito...)
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