Cheguei a casa, sentei-me e abri os livros. O trabalho repetido e minucioso afugenta-me os fantasmas e dá-me asas, porque não tenho que pensar em nada. É uma forma de libertação ou de alienação, chamem-lhe o que quiserem. Sinto-me a desmanchar por dentro. Não é a partir, é só a desmanchar, como se nada tivesse forma ou fizesse sentido. Dá vontade de pegar num martelo e de me destruir de raiva. Dá vontade de descansar sobre vocês e falar-vos baixinho, ao ouvido, para vos explicar o que se passa. Que o cansaço já está acima do sonho, que o medo está acima da força, que a vontade comanda a vida, mas não comanda estas situações. Explicar que o tempo há-de trazer nos ventos a indicação de um caminho qualquer para onde eu possa ir, com ou sem vocês. As costas doem, os braços tremem de carregar esta dor, as curvas na escada são uma equação impossível de resolver, tudo é difícil, tudo é esforço, tudo é inglório. E este amor que eu tenho por vocês, transforma-se numa luta, num sacrifício, somos mártires da nossa loucura, flagelados pela nossa obstinação e teimosia. Ter uma parte de nós que pertence a um morto é uma coisa muito estranha e eu não quero viver assim, prefiro cruzar os céus e ficar a ver o corpo que já não me pertence. Por isso, uma manhã destas, levanto-me, subo a persiana, vejo o dia e digo com toda a segurança é aqui que pertenço. Até lá, não consigo mais ficar aqui, não me peçam satisfações, nem ousem perguntar, deixem-me apenas ir. A minha casa está desfeita, o meu lar foi destruído. Já não encontro um ponto de estabilidade em lado nenhum, muito menos em mim.
Fiz as malas. Guardei todas as vossas recordações, não tinha espaço para mais, mas mesmo assim só deixei o vosso cheiro. Fechei a mala, desliguei a luz, despedi-me e fechei as portas. Saio de casa, apanho o comboio, sento-me e deixo-me ficar pela paisagem. Agora já me posso ir embora e deixar o maquinista que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e ainda bem que também não quer saber, ter o meu destino nas mãos...

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