domingo, 4 de dezembro de 2011

parte I


“Acredito que a verdade reside muito mais vezes no silêncio do que nas palavras, por mais belas e justas que sejam, mesmo quando voam do coração dos poetas para o coração do papel e ficam ali a dormir, à espera que alguém as apanhe.
Sou de poucas conversas e prefiro falar do mundo com ironia do que dissertar sobre o que me forra a alma, porque quem me conhece consegue ler nela tudo o que precisa e além disso, sem palavras nunca há equívocos.
Tenho mãos e olhos e tempo para aqueles que amo e quando se ama alguém é como se nos nascesse um néon na testa, maior e mais brilhante do que o do "Bellagio" em Las Vegas, uma luz serena, quase divina, que nenhum curto-circuito consegue apagar...
Esperam-nos praias na falésia, vodkas tónicos ao cair da tarde, noites claras e manhãs preguiçosas, a tua pele encostada à minha, a respiração profunda e regular do teu corpo adormecido e o cheiro salgado da tua pele quando te estenderes ao meu lado na areia, longe do mundo, perto de mim.
Tens uma docilidade igual à minha, genética, quase inconsciente, que te corre no sangue e que tentas esconder de ti próprio.
Às vezes consegues, és como eu, sabes disfarçar a dor, a tristeza, a solidão, a ausência, o medo e o desencanto e quando não consegues, vais-te embora e lambes as feridas em segredo até estares curado.
Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida...
Agora olho para trás e percebo que andavas por aí, mas como és discreto e sossegado nunca te consegui ver, mesmo quando me vias por todo o lado.
Não sei como não desisti, mas a verdade é que nunca deixei de sonhar, nunca deixei de acreditar que a vida me podia dar o que quero e mereço e se calhar é por isso que as pessoas confiam em mim quando lhes vendo os meus sonhos em folhas cheias de histórias e de desejos.
Não me apetece desistir, deixar de acreditar, voltar atrás e ter de esquecer o que foi importante, quando tu me disseste, desta vez com palavras, que estavas igual a mim, um bocado farto da solidão povoada, de acordar e fingir que está tudo bem, que é só mais um dia para à noite mergulhares no casulo ao lado onde ninguém te via e tu não vias ninguém.
A vida ensinou-me poucas coisas e com o passar dos anos só aprendi que tudo se desaprende e tudo muda, por isso confio mais em mim do que nos outros e sei que o apego é como uma droga leve, que vai tomando conta de nós todos os dias mais um bocadinho, mas se tudo correr bem, o medo acabará por se ir embora e poderei enfim descansar mesmo durante a viagem, desde que estejas por perto, dessa forma tão sábia e subtil que só tu conheces.
Mais do que as palavras ditas, e tu dizes poucas e por isso é que as oiço todas, foi o teu olhar de miúdo com o brilho dos dez anos e o sorriso de 12 que me entrou no coração como uma flecha do deus voador senhor das setas doces e fiquei sem resposta, com a garganta a dar nós e laços sozinha.
Não sei quantas formas de amor existem no mundo, mas se os árabes têm 99 nomes diferentes para o mesmo deus, então os homens podem inventar infinitas formas diferentes de amar.
E eu quero inventar algumas contigo a passear na praia ou em qualquer lugar onde te sintas feliz.
O amor tem muitas formas e muitas cores, mas só um segredo o faz resistir à mudança dos mundos e quem sabe se tu, que tens a alma de um chefe índio que ganhou muitas guerras sem ir a batalhas, tens a chave do nosso amor guardada no peito à espera que eu a descubra e a vá buscar…"

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