quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

"Acabou mais um dia. Mais 10 minutos, e vais poder despir o sorriso que te serviu o dia inteiro. Finalmente, porque as tuas bochechas já não estão a aguentar. Sais do trabalho já quase a correr. Pensas: “só tenho de chegar ao carro, e não preciso fingir mais.”. Só esse pensamento já retira 50 kg das tuas costas (ou do peito, que é lá que pesa). Dizem que fica mais fácil, mas já lá vão 3 meses e a dor persiste. E depois de 3 meses, já não podes ficar fechada em casa, porque a vida continua e, dizem, bigodes há muitos e por morrer uma andorinha, não se acaba a primavera! Pois, é bonito. Mas no teu mundo chove a potes.
Entras no carro. Pousas a carteira, o computador, e o corpo. Respiras fundo. Já só tens de chegar a casa. Lá, onde ninguém te vê, onde ninguém te julga, tudo te é permitido. Até desabar. Então conduzes. Ligas o rádio e pedes aos deuses para não apanhar trânsito, nem uma música que te faça lembrar “a pessoa”. O problema, é que todas as músicas, mesmo as que nunca ouviste, te fazem lembrar “a pessoa”. Ou melhor, nenhuma te faz lembrar a pessoa, porque para algo ser lembrado, é obrigatório que, previamente, tenha sido esquecido. E por mais que rezes (nunca acreditaste em Deus, mas ultimamente até já tens rezado!), essa é uma proeza que, por mais que tentes, não alcanças… Nem por um minuto.
Com sorte, a viagem decorre sem sobressaltos e até consegues um lugar de estacionamento mesmo à porta do teu prédio. A custo, pegas na tralha, esforças-te por encontrar as chaves na tua mala, que entre talões de comida e lenços de papel está pior que a Primark em dia de saldos. Abres a porta, tão pesada (sempre foi assim?! Será uma mola nova?!) e começas a sentir as pernas a atraiçoarem-te e a barriga a doer, como que num prenúncio de como vão ser as próximas 2 horas.
E já está. Chegaste. Entraste e fechaste a porta atrás de ti, juntamente com os olhares alheios, as conversas sem interesse, os provérbios irritantes e os teus sorrisos forçados. Podes, finalmente, deixar-te cair. Aqui, ninguém vai achar estranho, nem julgar-te fraca, nem dizer-te que tens de sair do buraco. Aqui, até podes escavar mais o buraco, pôr a cama no buraco e dormir no buraco, se te apetecer. Bom… pelo menos, até amanhã de manhã.
Largas as coisas onde calha – provavelmente no chão, ao lado da porta – e carregas-te até ao sofá. Ali permaneces. Por estes dias, nada te aconchega, compreende, e perdoa, como o teu sofá. Só ele não reclama quando ficas o dia todo em pijama, almoças e jantas cereais, e vês filmes lamechas durante todo o fim-de-semana. Já para não falar dos dias, como o de hoje, que lá te sentas, para chorar compulsivamente horas e horas seguidas quando chegas a casa, até não teres a capacidade corporal para fabricar mais lágrimas.
E a pessoa? Porque é que tens a sensação de que não está nem aí para todo o tempo que passaram juntos? Porque é que só em ti ficou o vazio, se as memórias que tens, não foste só tu que as viveste? É a dúvida que te assola, que te fere o orgulho e a autoestima e que, mesmo 3 meses depois (e serão mais 3… ou 2×3… ou 3 ao quadrado, que é exponencial!) te faz abrir a torneira e chorar desalmadamente por alguém que não está a chorar por ti.
Mas onde íamos? No sofá, ainda.
Com a choradeira, fez-se tarde. Tens fome – bom sinal!
Arrastas-te até à cozinha. Comes o que houver e que não der trabalho a fazer. Possivelmente, o mesmo de ontem. Felizmente, hoje, com mais fome.
E, quando acabas, voltas à sala. Mas já não é para chorar. Agora, depois de um prato quente, estás mais leve e mais serena. Afinal, hoje, já não vais escavar o buraco. Hoje, já choraste que chegue. Hoje, vais ouvir uma música alegre ou ver um episódio da tua série preferida.
Esta noite, estás mais perto de ti própria. Mais perto de ser quem eras antes “da pessoa” fazer parte (e fugir) da tua vida. Quem sabe hoje, já nem durmas no buraco. E pode ser que, com sorte, amanhã, já nem queiras pôr lá a cama.
E assim vais, degrau a degrau, subindo, até estares completamente fora dessa fossa, e sem qualquer vontade de lá voltar a entrar. Até lá, choras. Cada dia menos, até que não te apeteça mais.
Até chegar ao dia em que te falem da pessoa…
– A pessoa? Quem?!"

1 comentário: