sábado, 26 de fevereiro de 2011

Censura - Parte R

"Nunca sabemos para onde vamos. Nunca sabemos até onde podemos chegar, nunca conhecemos os nossos passos, mesmo quando pensamos que escolhemos os melhores caminhos. Tu vens e vais como um pássaro, voas como quem anda, ficas como quem mora e, quando partes nunca dizes adeus. Penso sempre é a última vez, mas depois há um força que te faz voltar, e a cada regresso trazes-me mais conforto, mais paz, mais sabedoria..."
Ele veio devagar e pratica as suas vontades, as suas imobilidades, desperta nela o brilho nos olhos mais intenso que o das estrelas, provoca alegria, aquela que ela costumava sentir dia-a-dia. Tocou delicadamente o seu rosto, fez com que ela "fechasse" os olhos, diante de tanta ternura, que sentiu a invasão de seu amor, como suave frescor e outras vezes, chega imponente sem pedir licença, entre feroz e quente, na sua pele e vestimenta. É capaz de ser isto a felicidade: uma coisa muito pequena e simples com a qual nos sentimos bem e nos dá conforto.
Ela nunca mais se tinha sentido tão leve.
Não sabia o que se tinha passado no passado e aquela falta de memória deixou-a numa tranquilidade enorme.
(-Não sei onde estou...)
Ele estava perto e se calhar é por isso que a sensação de bem-estar era tão exacta. (Não sei se os meus olhos vêem além desta pacificadora luz azul. Não vejo nem estou cega. Acho que não quero ver. Não tenho a certeza, mas acho que estou sozinha.)
Ela não via ninguém e isso não lhe parecia estranho, não lhe apetece ver ninguém.
Ela achava que estava sobre as ondas do mar e não lhe apetecia nadar. Sentia o corpo leve e a flutuar. Deixou de ter dores.(Já não sinto as pancadas, já não me dói nada.) É maravilhoso saber que não é preciso fazer mais nada a não ser deixar-se ir. (Sentia uma espécie de brisa no peito, "cá dentro", mesmo "cá dentro", mesmo "dentro de mim").
Mas todo aquele estado anestesiado foi temporário. Ambos cairam no erro da dor da ignorância e do repúdio (e falo de uma montanha que surgiu do chão, falo de um grão que amanhece, falo de ti se me quiseres em ti...), e ela teve de lhe dizer:
-É preciso amar devagar.
-Não entendo.
-O amor não quer pressas nem sobressaltos. Nem que aconteça antes de ter mesmo de acontecer.
-Não entendo.
-O amor é como a certeza da Lua no céu e mesmo que não se veja fica connosco se for verdadeiro e volta se tiver de voltar, porque nunca chegou a partir.
E ele continuou sem entender.
(Sei que me ouves. Aí, onde estiveres, na fronteira do nada e do silêncio: "If there's no quiet corner to get to know each other then there's no hurry. I'm a pattientman...")

(Censura-parte A/ Censura-parte R: Falo do amor que se tem e do amor que nos falta. Do que procuramos só para sentir que existe também para nós. Falo do amor feito com os olhos, as palavras e a pele. Falo de tudo. E não falo de nada. Eu lutei por isto. Serás capaz de entender isto?)

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