sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Censura - parte A

O dia esteve com cores cinzentas, o sol mal conseguiu romper por entres as nuvens e a chuva voltou a cair. Esteve um dia propício à explanação de pensamentos e ideias.
Aqui dentro há uma paz que a agita. As palavras morrem de encontro às paredes.
-Tenho saudades tuas. Sei que me podes ouvir...faz um esforço! Tenho pensando (outra vez) em ti em todas as horas.
Ela começou a soluçar. O som vai de parede a parede em ricochetes de eco, abafando tudo à sua volta e a chuva lá fora cai em prantos incontroláveis.
Com o coração cheio de dor, a rapariga levanta-se e sai a correr. Cá fora o mundo está coberto de água. Corre à chuva. Perseguem-na os demónios da sua vida inteira. Enterra os pés em fundas poças de água. Os cabelos está colados à cara e a roupa está encharcada. Nada lhe interessa. Pouco lhe importa.
É já muito tarde quando percebe que os passos a guiaram para o caminho errado.Treme de frio e de dores que não sabe classificar.
-Tenho tanta coisa para te dizer e não sei como começar. Desde que vieste para aqui que sinto uma espécie de peso, como se tivesse de cainhar sozinha com a vida às costas. É como se andasse vergada por trazer uma dor muito grande em cima de mim...
Ele olhou-a muito fixamente e começou a falar sem se calar: nenhum de nós volta jamais ao sítio de onde partiu e os estrondos que se ouvem podem tornar-se grandes silêncios e a voz que se cala pode vir a gritar muito. Por maiores que sejam as tuas dores, um dia ficarás à sombra do teu prazer.
Lá fora o dia fez-se uma súbita noite, e a paz tornou-se violenta. A chuva cai com uma força reforçada, as plantas alimentam-se avidamente e algumas morrem sufocadas (é preciso fugir enquanto é tempo).
Viveu deias sem viver. Morreu em vida. Voltou e não sabe para quê.
O silêncio quebra-se com um desfilar de pequenos sons de ritmos certos...
Se ela pudesse nunca mais dormia. Ou dormia para sempre. Ou saltava de uma janela para um ar que a engolisse.
Não está nem no lado "bom", nem no lado "mau". Está. E vai continuar a estar.
Tenta equilibrar-se nas suas "muletas" tontas, faz piruetas, é o palhaço pobre e a menina que ri.

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